quinta-feira, 7 de março de 2013

DESABAFO



Hoje, eu tenho uma confissão a fazer. Tenho que desentalar tudo o que está aqui nessa garganta que entoou tantas canções pensando em ti. Tu, que te tornaste parte importante de minha vida, parece não querer entender o que se passa dentro desse coração surrado. Pareces não perceber que o tempo passa, que as folhas voam, e que as coisas mudam. Bem... nem todas as coisas mudam.
Todo esse tormento começou no exato mês de novembro do ano de 2009. Eu, que acabara de ter o coração dilacerado por outra pessoa que não soube entender o que eu sentira por ela, terminei me rendendo aos seus encantos, mas não o percebera até o mês de fevereiro seguinte, quando, após o longo período de quase três meses em que passamos distantes, eu já tinha percebido o quanto senti a sua falta, e terminei percebendo o que já tinha se tornado uma questão de mera lógica.
Não quero me fazer de vítima, muito menos de coitado, mas as tentativas que fiz de te dizer o que eu sentia naquela época nunca dariam certo, assim como qualquer investida no sentido de ter teu coração junto ao meu seria fadada ao fracasso. Reconheço que não tentei tanto quanto devia, e reconheço o quanto errei contigo todos esses anos.
Estamos ainda por completar quatro anos de convivência, e, desse tempo, gastei três anos e meio te amando. Intensamente, intransitivamente, te amando. Cada dia meu seria em vão se eu não te visse ou fizesse sorrir todos os dias. Terminei por voltar a escrever por sua causa (e agradeço por isso), até. Músicas, poemas, textos etc. Poucas coisas dessas, porém, eu pude te mostrar, mas de nenhuma delas pude revelar a real destinatária. Infelizmente, o medo de perder a sua amizade me acovardou de forma tal que meu ímpeto de realizar o maior dos meus desejos (o de estar contigo) simplesmente desapareceu.
Sonhei, minha amiga, durante todo esse tempo, com o dia em que estaríamos juntos final e definitivamente. Não imaginas quantas vezes sorri involuntariamente ao especular o dia em que dirias sim para mim e defronte ao juiz de paz, os momentos em que eu cuidaria de ti ou que cuidarias de mim. Infelizmente, esses sonhos desapareceram no tempo/espaço, e não (ou ainda) existem mais. Não imaginas o quanto eu quis te fazer feliz, não imaginas o quanto te amei. Amei, sim. Amei, mas sempre respeitei a tua decisão de nunca fazer de mim algo mais do que seu amigo. Porque amor, antes de tudo, é isso. É respeitar a pessoa amada.
Nunca te condenei por nada – exceto quando começaste a namorar o meu amigo, mas isso foi, talvez, uma loucura da minha cabeça –, e nem poderia. A escolha foi tua, e eu não posso fazer nada para mudar o que sentes por mim. Talvez haja uma forma, mas ainda não a descobri. Quem sabe, um dia, eu possa olhar para ti e não mais ver uma amiga, mas a minha companheira? Não sei. Só Deus sabe.
Hoje, no mês de março ano de 2013, olho para trás e me arrependo de tanta coisa que eu poderia ter feito para ficar contigo, mas não pude fazer. Algumas vezes, por falta de coragem; outras – a maioria, na verdade –, por não poder. Vejo-te feliz, e isso, de certa forma, me deixa feliz também, mas nada tira de mim o peso no coração de não poder estar contigo. Não sei se te esqueci; na verdade, nem me importo mais com isso. Os anos passam, mas esse encanto que exerces sobre mim parece não acabar. És, talvez, a figura mais maravilhosa que eu conheci neste ambiente acadêmico, e gostaria muito de ter-te na minha vida para sempre, de uma forma ou de outra.
Não posso me dizer, porém, uma pessoa triste. Ver teu sorriso ainda é a minha alegria, mas pela amizade que temos. Isso ainda é muito valioso para mim. Mesmo assim, já pensei inúmeras vezes em sair da sua vida, sair da vida daqueles que sempre estão conosco, para tirar-te, de uma vez por todas, da minha cabeça. Mas essa tua bondade ainda me atrai de tal forma que sou incapaz de fazer coisa assim. Não consigo pensar mal de ti, e acredito sinceramente que nunca conseguirei.
Somente o que quis de ti foi que retribuísses meus sentimentos, ainda que fosse por somente um instante. Infelizmente, nada disso foi possível. Talvez, por razões que eu ainda não entenda, o que todos os meus pares me dizem seja verdade: a pessoa certa ainda não apareceu na minha vida, mas, um dia, aparecerá. Quero poder me libertar dessas correntes que me prendem a ti, que me fazem tão insignificante perante meus sentimentos. Qual o mal que cometi para que o que está aqui dentro não pudesse ser gerado em ti por mim?
Um dia, quando soube do teu primeiro namoro, eu me maldisse severamente, taxei-me de incompetente, de imbecil, de ser inferior, por ter aquele rapaz conseguido, em menos de um mês, o que eu demorei mais de um ano, à época, para não conseguir. Senti-me, como outras vezes também me senti, amaldiçoado por ter que sofrer de novo por alguém que não me correspondeu os sentimentos, mas nunca guardei nenhum sentimento ruim por ti. Engoli a situação que estava configurara e senti o amargor do sofrimento por ti. Ver-te, naquela época, tinha se tornado algo torturante, desgastante; ouvir a sua voz, que um dia foi música para os meus ouvidos, tinha virado o grito de uma harpia para os meus ouvidos.
Aguentei, aguentei, e aguentei, mas sem esperar que um dia me amasses de volta. Aguentei porque o amor a tudo suporta, e suportou àquelas coisas, assim como suportou o que eu considerei, tempos depois, a traição de um amigo. Sim, eu tinha percebido que tu e ele estavam juntos enquanto ainda tentáveis esconder de todos – e, acredito eu, principalmente de mim – o que estava acontecendo, mas, apesar de apaixonado, como estava naqueles tempos, nunca fui besta. Julgaram-me um imbecil, eu presumi, mas eu nunca poderia esperar uma ação de má-fé vinda de ti. E, talvez, nem tenhas se importado comigo, mas a docemente covarde atitude que tivestes encheu-me de um rancor e uma amargura de uma forma que eu nunca tinha sentido antes.
Mas, hoje, não sinto outra coisa por ti que não seja amor. Amor de amigo ou de amante, eu não sei, mas amor. Eu te amo desde que nos aproximamos, te amei quando eu sofri tanto antes, e ainda te amo hoje, e vou te amar para sempre, ainda que estejamos distantes um dia. Queria poder dizer-te tudo isso cara a cara, olho no olho, mas o respeito por ti ainda me impede de fazer uma série de coisas que queria fazer contigo. Ainda há muito mais a ser dito e escrito, mas não hoje. Eu ainda te amo.

Natal, Rio Grande do Norte, sete de março de 2013

Daniel Augusto de Alcaniz Santos

segunda-feira, 4 de março de 2013

POEMA DA RECAÍDA



E, quando o Pai me permite te ver,
Sempre me pergunto: porquê?
Por que o meu coração ainda quer estar junto ao seu?
Por que meus lábios ainda querem beijar os seus?
Qual o motivo do meu amor ainda estar contigo,
Se, em verdade, não podemos ser mais que amigos?

Sei que os termos que emprego podem ser piegas,
Que as palavras não são as mais lindas deste meu ridículo repertório,
Mas, ao te ver, meu coração ainda salta para fora da glote,
E vejo que ainda não paguei a minha dívida com o passado;
No cérebro, o coração deu um calote.

O que é isso aqui dentro? Tantas quedas, tantas tentativas
De tirar-te de mim. Você, que me feriu como espinho de rosa,
E fincou-se neste coração servo do seu carinho e sua bondade.
Por favor, saia. Não posso mais te ter fixa em mim;
Por favor, saia. Não posso mais me sentir assim.

Daniel de Alcaniz

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

CANÇÃO PARA NINAR UM ANJO


Dorme, meu bem. Dorme, meu bem.
Sonhe com os anjos. Dorme, meu bem.
A noite vem passando, estrelas estão brilhando,
Deus guarda teu sono. Dorme, meu bem.

Lá fora, o mundo assusta, mas não te preocupes,
Estarei contigo por onde teus olhos forem.
Tu, meu amor, fiques tranquila e veja que,
Incessantemente, este que te verseja
Continua a te amar.

Dorme, meu bem. Dorme, meu bem.
Sonhe com os anjos. Dorme, meu bem.
A noite vem passando, estrelas estão brilhando,
Deus guarda teu sono. Dorme, meu bem.

Incontida ternura em teus olhos, a doçura em teu sorriso,
A candura do teu semblante, fazem, da noite, um paraíso.
Ai, meu amor, eu te juro: Não temas o futuro.
Laurel é ter-te comigo.
Fado trouxe-nos juntos, meu Anjo, o
Fado nos manterá juntos.

Dorme, meu bem. Dorme, meu bem.
Sonhe com os anjos. Dorme, meu bem.
A noite vem passando, estrelas estão brilhando,
Deus guarda teu sono. Dorme, meu bem.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

RESPOSTA

Eu não sei bem o que me levou a escrever esse poema. Na verdade, eu nem sabia que eu ia escrevê-lo quando comecei. Era para ser só uma frase para refletir, mas tornou-se mais. Nada longo, mas algo que veio de dentro, sei lá. Não sou nenhum gênio da escrita. Acabei de terminá-lo. Enfim... aí vai:
------------------------------------------------------------------------------

Como sobreviver?
Como viver?
Como lidar?
Como amar?
Como não amar?
Como não pensar?
Como afastar o amar?
Amar? Não amar?
Sim: amar. Amar antes de amar.

Daniel de Alcaniz

sábado, 15 de dezembro de 2012

ABRIL


Habito o sol dentro de ti.
Descubro a terra, aprendo o mar.
Por tuas mãos, naus antigas, chego ao longe,
Que era sempre tão longe, aqui tão perto.
Tu és meu vinho, Tu és meu pão.
Guitarra e fruto, meu navio,
Este navio onde embarquei
Para encontrar, dentro de ti, o país de Abril.
E eu procurava-te nas pontes da tristeza,
Cantava. Adivinhando-te, cantava
Quando o país de Abril se vestia de ti,
E eu perguntava quem eras.
Meu amor, por ti cantei, e tu me deste
um chão tão puro, algarves de ternura.
Por ti cantei, à beira-povo, à beira-terra,
e achei, achando-te, o país de Abril,
e achei, achando-te, o país de Abril.
Manuel Alegre

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

CONFISSÃO


Eu tenho sido um imbecil. Na verdade, tenho tentado crescer, mas há algo que me impede de ir além, de construir a vida confortável que sempre sonhei, mas que nunca (ainda) pude ter. Tenho sido insensível, incoerente, sonhador demais. Tenho, ultimamente, pensado que sou mais do que eu sou, que eu tenho capacidades acima das que eu realmente tenho, mas nada disso tem me impedido de ainda sonhar com o sucesso.
Sucesso. Essa palavra tem me perseguido e me pressionado desde quando me dou por gente. A expectativa (infundada, creio eu) que a família deposita em mim não parece me motivar a buscá-lo. O sucesso, acreditei, viria naturalmente. Afinal, minhas conquistas até agora (é ridículo falar-se em conquistas, pois não tenho nenhuma) vieram exatamente desta forma: naturalmente. Todas as quedas também são naturais.
Tenho descansado em minha própria sabedoria, tenho achado que sei mais do que eu realmente sei. Sinceramente, não consigo viver sendo um burro. Talvez seja por isso que criei essa doce ilusão de que eu poderia ser inteligente ou sábio. As pessoas dizem que eu sou às vezes, mas eu não acredito. Não consigo alcançar a satisfação dos meus desejos mais superficiais, imaginem a dos meus desejos mais profundos. Tenho julgado os outros, mas feito um uso até produtivo da minha capacidade de raciocinar deixando as emoções em segundo plano (essa é uma das poucas qualidades que acredito ter). Infelizmente, não consigo fazer a leitura adequada das pessoas que me cercam como antes eu faria. Estou confuso.
Mas essa confusão tem origem indefinida. Falta de concentração, de capacidade de focar em algo a longo prazo, tem sido obstáculos ao meu desenvolvimento. Às vezes, sinto-me como um homem de meia-visão: sei o que deve ser feito, mas não sei como deve ser feito. É a mesma coisa de se ter um carro para ir ao lugar que se quer ir, e saber onde este lugar fica, mas não o caminho para chegar até lá. É algo lastimável.
Apesar da pressão das pessoas, assim como a necessidade de melhorar de vida ou na vida, não consigo achar a motivação para lutar da forma certa. Não sei de onde vem a minha incapacidade de me concentrar em objetivos, nem de onde vem a minha mania de procrastinar frequentemente, mas sei que isso precisa acabar. Como, porém, conforme previ, não sei. Só sei que preciso achar a motivação, mas nada me motiva. Às vezes, associo o meu dom (ou maldição) de uso do cérebro para pensar em vez do coração para sentir a isso. Motivação, coisas “que mexem” conosco, afetam tudo que vem das emoções, e eu não sou uma pessoa de emoções fortes, nem de me modificar porque algo aconteceu na minha vida.
Não sei mais o que fazer. Talvez a pressa em alcançar o sucesso, em contribuir de alguma forma com a sociedade e meu crescimento pessoal esteja a me afligir, a me sufocar. Quero que tudo aconteça agora, e não daqui a dez ou vinte anos. Eu costumo ser paciente, mas gosto de resolver tudo na minha vida da forma mais rápida e fácil possível, e essa minha capacidade de ver oportunidades, mas de não saber como tirar proveito delas, se não causa danos emergentes, causa sérios lucros cessantes.
Desculpem-me. A falta do que fazer junto com a insônia das 3h20 da manhã me fizeram escrever esse monte de besteira. Estou confuso e angustiado. Só isso.

Natal, Rio Grande do Norte, terça-feira, dia 11 de dezembro de 2012.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

EXPLICAÇÃO DO PAÍS DE ABRIL


Aí vai um poema de um grande poeta português chamado Manuel Alegre. Nele, ele explica uma das suas criações: o País de Abril, que se acha mencionado numa das minhas músicas favoritas: Abril, na voz inconfundível de Amália Rodrigues. Espero que gostem.
-----------------------------------------------------------
País de Abril é o sítio do poema.
Não fica nos terraços da saudade
não fica nas longas terras. Fica exactamente aqui
tão perto que parece longe.

Tem pinheiros e mar tem rios
tem muita gente e muita solidão
dias de festa que são dias tristes às avessas
é rua e sonho é dolorosa intimidade.

Não procurem nos livros que não vem nos livros
País de Abril fica no ventre das manhãs
fica na mágoa de o sabermos tão presente
que nos torna doentes sua ausência.

País de Abril é muito mais que pura geografia
é muito mais que estradas pontes monumentos
viaja-se por dentro e tem caminhos veias
- os carris infinitos dos comboios da vida.

País de Abril é uma saudade de vindima
é terra e sonho e melodia de ser terra e sonho
território de fruta no pomar das veias
onde operários erguem as cidades do poema.

Não procurem na História que não ven na História.
País de Abril fica no sol interior das uvas
fica à distância de um só gesto os ventos dizem
que basta apenas estender a mão.

País de Abril tem gente que não sabe ler
os avisos secretos do poema.
Por isso é que o poema aprende a voz dos ventos
para falar aos homens do País de Abril.

Mais aprende que o mundo é do tamanho
que os homens queiram que o mundo tenha:
o tamanho que os ventos dão aos homens
quando sopram à noite no País de Abril.
Manuel Alegre