segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Neologismo

Eu não gosto muito de poesia moderna, mas gosto muito desse poema. É simples e tem muito conteúdo nele:


Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teodora.

Manuel Bandeira

domingo, 7 de novembro de 2010

O Amor

Estou dando início hoje a uma série de textos que vou escrever. Cada um em homenagem a uma pessoa diferente da minha vida. Esse primeiro é dedicado a Pequena. Inicio com esse sobre aquilo que mais gosto de escrever: O amor.


Ah, o amor... Aquele sentimento que nos faz suspirar, nos faz querer ser melhores, nos faz sonhar, que faz nossos corações baterem mais intensamente, que nos faz doar a nós mesmos... Enfim. O sentimento que nos faz ter reações inúmeras em nossos corpos. O amor é igual à Hidra de Lerna: tem várias faces, várias cabeças. Aqui nesse texto, porém, irei tratar apenas da cabeça central, a maior e mais conhecida de todas: o amor entre o homem e a mulher.

O amor, acredito eu, é o sentimento mais forte que alguém pode ter dentro de si. Ele envolve todos os outros sentimentos da nossa mente: tristeza, angústia, raiva, alegria, prazer, entre outros. Afinal, quem nunca se entristeceu por causa daquela pessoa por quem nos apaixonamos? Por aquela pessoa que não te correspondeu? Há ainda alguns que amam, mas não podem estar juntos da pessoa amada – é o caso das pessoas que se gostam e que não podem estar juntas –, assim como há aqueles que ficam felizes ao ver um sorriso no rosto de quem gostamos, e outros que fazem de tudo pela felicidade da sua amada (ou do seu amado) e que se alegram no simples fato de estarem fazendo bem àquela pessoa. Há aqueles que se doam por inteiro à pessoa amada sem nem pensar nas conseqüências, não se importando se são correspondidos ou não – sem medo de se machucarem (esses são os mais raros).

E que tipos de amantes existem? Eu costumo dividir em dois tipos: os amantes fugazes, que sentem algo intenso, mas geralmente não sólido, e os amantes moderados, que se apaixonam geralmente com a convivência, que sentem algo ora intenso, ora não intenso, mas que é muito sólido e que não surgiu do nada, tendo sido esse sentimento construído dia após dia. O primeiro acontece mais nos filmes, nas peças de teatro e na literatura romântica. Embora aconteça também com freqüência na vida real, ao contrário dos filmes e livros, o amor fugaz na vida real não é tão intenso ou tão profundo quanto aquele que acontece na ficção. O caso mais célebre na literatura de amor fugaz é o de Romeu e Julieta. O simples fato de o amor ter surgido do nada faz o amante se decepcionar com maior facilidade. Entretanto, é o que tem mais chances de dar certo. Por ter sido fruto de uma atração pré-estabelecida, as intenções de ambos os amantes ficam claras antes de a relação iniciar-se. O segundo, no entanto, criado pela convivência entre duas pessoas, embora geralmente seja mais sólido e mais profundo (porém, às vezes, não tão intenso), é o que tem menos chances de dar certo.

Quem lê deve ter percebido que eu não coloquei intensidade, solidez e profundidade do amor no mesmo conceito. Me sinto, é claro, na obrigação de explicar o porquê. Não se deve confundir intensidade, solidez e profundidade do amor. O amor pode ser intenso, mas não sólido, nem profundo, e vice-versa. O primeiro caso acontece freqüentemente com pessoas que sentem o amor fugaz. Acham que encontraram, de repente, o amor da vida delas, e que nada vai acabar esse sentimento, ou que ele vai durar para todo o sempre (isso acontece muito na adolescência). Depois de algum tempo, porém, essas mesmas pessoas vêem que o sentimento não resistiu a algumas decepções, ou então às primeiras dificuldades de um relacionamento. Se dão por conta de que não amavam tanto quanto pensavam que amavam. A paixão fugaz tem o poder de nos iludir e fazer-nos pensar que o sentimento é maior do que o que ele realmente é, tal como numa ilusão de ótica. Não quero dizer com isso que a intensidade do sentimento não é importante. O que quero dizer é que não adianta o sentimento ser intenso e não ser sólido.

É possível também que o sentimento não seja tão intenso assim, mas seja muito sólido ou muito profundo. É o caso dos amantes de longa data, das pessoas que estão casadas há anos e ainda se amam, dos namorados que querem se casar, etc. Essas pessoas com certeza não suspiram de amores como um adolescente fugazmente apaixonado, mas sentem que a pessoa amada é aquela que ela quer para o resto de suas vidas. Esse tipo de amor é o que sobrevive a mais provas, mais dificuldades. Não quero dizer com isso que os amantes não sintam o coração bater mais forte ou aquela vontade de estar junto da pessoa amada, e sim que esse é o tipo de sentimento é mais duradouro, equilibrado, mais parecido até com o amor que a Bíblia descreve em I Coríntios, capítulo 13. Embora a definição Bíblica tenha mais a ver com o conceito lato sensu de amor, podemos sim fazer essa analogia: O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. É o que muita gente costuma chamar de "amor verdadeiro". Ou ao menos dá uma idéia do que ele seja.

Apesar de ser um sentimento que costuma dominar a pessoa que o traz consigo, o amor não pode se separar da inteligência de quem ama. Mesmo no afeto, é preciso ser inteligente. Tanto antes como durante e depois dele. Principalmente durante e depois dele. Embora o amor seja um sentimento que nos traga a vontade de melhorar como pessoas ou de se doar à pessoa amada, é bom que sempre seja mantida a temperança para que o que é mel não comece a lambuzar a pessoa amada. É o que chamamos de ser "meloso" (vide a saga Crepúsculo). Tudo em demasia faz mal e o amor não está excluso disso. Parcimônia deve ser a palavra de ordem para tudo que fazemos e sentimos na vida. Amar com inteligência é saber quando o amor deve nos guiar e até onde ele pode nos dominar. Quem consegue amar com inteligência, aliando um ao outro, acha a verdadeira essência de amar – e geralmente quem ama de forma fugaz não consegue ser inteligente enquanto ama. Às vezes, no entanto, é melhor que nos deixemos guiar por nossos corações, pois, nos dizeres de Antoine de Saint-Exupéry, só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.

Não vou entrar no mérito de tentar diferenciar amor, paixão e desejo porque acho que já existe muita gente boa por aí muito mais capaz do que eu de diferenciar os três. Como disse em um texto anterior, não tenho vocação para filósofo.

Por fim, quero dizer que, não importa o tipo de amante que sejamos, nós sempre pensamos que lidamos com um ser perfeito, livre de defeitos. Alguns, porém, conseguem enxergar defeitos nos seus amados. Mesmo assim, ainda amam, porque, ainda que não lidem mais com seres perfeitos, esses amantes amam os defeitos dos amados – isso é raro, mas acontece. Entre os tipos de amor que existem, eu preferi descrever os tipos de amantes. Em outra oportunidade, eu tentarei diferenciar os tipos de amor, sem falar dos tipos de amantes. Quero terminar citando o maior dos escritores ingleses, William Shakespeare: "O louco, o enamorado e o poeta são filhos da imaginação. Um vê mais demônios do que aqueles que o inferno pode conter: é louco. O apaixonado, igualmente frenético, vê a beleza de Helena num frontispício egípcio; o olhar do poeta, esse, animado por um belo delírio, transporta o céu para a Terra e a Terra para o céu". (Sonhos de uma noite de verão)

Versos Íntimos

Hoje, vou colocar mais um poema. Desta vez, não é meu. É um poema que meu avô gosta muito e que eu gosto também. É de um dos maiores poetas que o Brasil já teve. Espero que gostem.


Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Augusto dos Anjos

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Constelação

Antes de mais nada, quero dizer que esse é meu poema mais recente. Comentem. Não importa se é para elogiar ou criticar. Só preciso da opinião de vocês.


Vi, no céu, à noite, uma constelação.

Nessa constelação, constavam estrelas.

O brilho delas, alvo, intenso, constante,

Iluminou-me o olhar no sereno,

Fez lembrar-me de ti num instante.


Estava eu à sombra da escuridão do firmamento.

Ao lembrar-me de ti, vi as estrelas formarem um desenho.

Que desenho é esse? – Perguntei a mim mesmo.

Não consegui identificar, mas senti, do coração, os batimentos

E um bom pressentimento.


A lua observava de sua morada a dança suave das estrelas.

A tramontana, minha guia, perdeu-se no baile celestial;

A lembrança de ti guiou-me o entendimento,

O desenho ficou claro no firmamento,

Quando a dança finalmente terminou, eu vi:

Foi teu nome que vi naquele momento.

Durante um temporal

Hoje, não vou colocar nada meu. Me lembrei do meu poema favorito, que tem quase 200 anos que foi escrito.


VAI FUNDA a tempestade no infinito,
Ruge o ciclone túmido e feroz...
Uiva a jaula dos tigres da procela
— Eu sonho tua voz —


Cruzam as nuvens refulgentes, negras,
Na mão do vento em desgrenhados elos...
Eu vejo sobre a seda do corpete
Teus lúbricos cabelos ...


Do relâmpago a luz rasga até o fundo
Os abismos intérminos do ar...
Eu sondo o firmamento de tua alma,
À luz de teu olhar ...


Sobre o peito das vagas arquejantes
Borrifa a espuma em ósculos o espaço...
Eu — penso ver arfando, alvinitentes,
As rendas no regaço.


A terra treme... As folhas descaídas
Rangem ao choque rijo do granizo
Como acalenta um coração aflito,
Como é bom teu sorriso,....


Que importa o vendaval, a noite, os euros,
Os trovões predizendo o cataclismo...
Se em ti pensando some-se o universo
E em ti somente eu cismo...


Tu és a minha vida ... o ar que aspiro ...
Não há tormentas quando estás em calma.
Para mim só há raios em teus olhos,
Procelas em tua alma!

Antônio Frederico de Castro Alves

sábado, 30 de outubro de 2010

Pessoas Especiais

    Ontem foi um dia especial para mim. Hoje também é. Ontem foi porque foi o aniversário de uma amiga muito querida minha chamada Juliana Lemos; hoje, porque é o aniversário de Dona Sandra, minha mãe.

    Sinto muitas saudades da minha amiga querida dos tempos de colégio. Ela é uma pessoa sem precedentes na humanidade. Sempre disposta a me ajudar e a ajudar a qualquer pessoa na face da Terra. Tem um jeito doce e um caráter ímpar, além de uma paciência de Jó (para me agüentar, só pode ter uma paciência dessas). Não sei por qual motivo eu amo tanto essa pessoa, nem por que eu sinto que ela vai estar presente em toda a minha vida. Ju, que todas as graças do mundo sejam derramadas em você.

    Minha mãe faz aniversário hoje. Ela me criou sozinha e passou por várias coisas por mim e minha irmã. Como estou mais liso do que pau de sebo, essa é a homenagem que estou podendo fazer a ela no dia em que ela completa 46 anos (mas parece ter 36). Que Deus sempre nos abençoe, mãe!

    Sem muito pra escrever, só queria deixar essa homenagem singela para essas duas pessoas especiais da minha vida. Mais tarde, talvez, eu coloque o texto que queria escrever hoje.

sábado, 23 de outubro de 2010

Serenidade

Hoje, eu estou aqui para mudar um pouco o estilo do blog. Não deixarei de postar poemas, mas, como está cada vez mais rara a possibilidade de escrevê-los, resolvi me aventurar na prosa. Esse é o primeiro texto de (espero) muitos. Espero que gostem.

Serenidade... é uma palavra difícil de conceituar, assim como também é difícil de sentir. Alguns dizem que é um estado de tranqüilidade, paz de espírito; outros acham que é a capacidade nossa de conviver bem com os problemas do dia-a-dia. Eu, porém, não tento conceituar isso. Não tenho vocação para filósofo.
A bem da verdade, acredito sinceramente que ser sereno é saber lidar com tranqüilidade com as coisas ruins que acontecem em nossas vidas. Capacidade de saber manter a calma em situações de tristeza extrema, ou de conformidade com certas situações desagradáveis. Uma pessoa serena por natureza pode sim ficar triste com algumas coisas que acontecem consigo, mas sabe lidar com isso. Infelizmente, para nós, não é sempre possível ser sereno. Há momentos na nossa vida em que nos irritamos com coisas tão bestas, mas que nos afetam tanto, como se o mundo fosse acabar neste instante ou como se a situação nunca fosse acabar. A minha experiência de vida, embora não seja tão extensa, mas seja intensa, me mostrou como tentar alcançar a verdadeira serenidade, a sempre relevar as coisas que fizeram contra mim, embora apenas culposas muitas delas, mas que afetaram a mim um dia. Aprendi, então, a manter a calma sempre.
A serenidade, como bem disse Epícuro de Semos, não deve ser apenas para nós mesmos, mas também para os outros que nos rodeiam. Uma pessoa serena passa confiança aos outros, é justa, equilibrada, temperada em seus atos, sensata, capaz de passar por cima de todos os sofrimentos e depois, mesmo após enfrentá-los, sorrir e olhar pra frente para ver o horizonte. Li uma vez que todo sofrimento recebido com serenidade tem um doce-amargo que, em vez de maltratar, nos faz bem. Talvez seja essa a essência de uma pessoa serena: a capacidade de enxergar o sofrimento como uma fase da aprendizagem e tomar todas as pedras no caminho para si e, depois de tudo, construir seu castelo. Com serenidade, se passa por tudo.
Às vezes, a nossa avidez pela vitória nos tira a serenidade. Quando, ao invés disso, é encontrada a derrota em sua frente, a avidez de outrora dá lugar a uma decepção que pode tirar o sono, a alegria, o tônus do coração. Uma pessoa serena também passa por decepções? Acredito que sim; afinal, todos nós queremos vencer um dia, todos nós temos sonhos, mas as pessoas que são serenas conseguem passar pelas mais duras decepções e derrotas da vida. Sofrem também, mas têm força para superar suas dores e seguir em frente sem olhar tanto para trás.
E de onde vem a serenidade? Qual a sua fonte? De onde vem essa capacidade de sentir calma quando ninguém mais sente? Acredito, eu, que tem várias fontes: alguns já nascem assim; outros, com o tempo e a vivência, a experiência de vida; outros, da misericórdia Divina. A verdadeira serenidade vem de dentro de nós, vem de nossas experiências e de Deus (para os que não acreditam Nele, sobram apenas as duas primeiras). Vem de dentro de nós porque uma pessoa serena tem força para agüentar suas dores, suas frustrações, e, ainda assim, ainda transparecer sua calma, mostrar a sua paciência e sua temperança. Vem de nossas experiências porque uma pessoa serena tem a capacidade de ver os erros seus e de outros e ser racional para aprender com eles. Como me disse uma vez meu grande ex-professor de xadrez, Ubiratan de Lemos: no xadrez, assim como na vida, há pessoas que aprendem com seus próprios erros; os bons, com os erros dos outros. Os sábios são, por natureza, serenos, e também aprendem com os erros dos outros. Vem de Deus porque a fé Nele, não importa a denominação religiosa que seja professada, nos faz agüentar o que passamos na vida. Pedimos a Ele em nossas orações que nos dê serenidade – ainda que não usemos essa palavra – para passar por todas as privações do mundo. Como disse Cristo, “Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo”. (João 16; 33)
Por fim, sabemos que nem sempre é possível manter a serenidade, É nesses momentos de fraqueza que vemos que temos de ser serenos, pacientes, temperados, dentre outros adjetivos que qualificam uma pessoa serena. Quando o sereno por excelência recupera sua serenidade, ele vê que tem força para enfrentar as tribulações da vida, e aprende a, quando passar por situação semelhante de novo, manter sua serenidade intacta. Sendo assim, o sereno é paciente, temperado, aprende com os erros passados, não só os seus, mas também os dos outros, tem fé e, acima de tudo, tem esperança de que tudo se resolva.